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Eugénio de Andrade. Príam i Aquil·les

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E o único que me restava, ele que sozinho defendia a cidade e o povo,
esse tu mataste quando ele lutava para defender a pátria:
Heitor. Por causa dele venho às naus dos Aqueus
para te suplicar; e trago incontáveis riquezas.
Respeita os deuses, ó Aquiles, e tem pena de mim,
lembrando-te do teu pai. Eu sou mais desgraçado que ele,
e aguentei o que nehun outro trerrestre mortal aguentou,
pois levei à boca a mão do homem que me matou o filho.
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Ilíada, XXIV, 499-506
Tradução de Federico Lourenço

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À sombra de Homero

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E mortal este Agosto – o seu ardor
sobe os degraus todos da noite,
não me deixa dormir.
Abro o livro sempre à mão na suplica
de Príamo – mas quando
o impetuoso Aquiles ordena ao velho
rei que não lhe atormente mais
o coração, paro de ler.
A manhã tardava. Como dormir
à sombra atormentada
de um velho no limiar da morte?,
ou com as palavras de Aquiles,
na alma, pelo amigo
a quem dera há pouco sepultura?
Como dormir às portas da velhice
com esse peso sobre o coração?
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José Fontinhas [Eugénio de Andrade] (Póvoa de Atalaya, Beira Baixa, 1923 - Oporto,  2005)

José Fontinhas [Eugénio de Andrade]
(Póvoa de Atalaya, Beira Baixa, 1923 – Oporto, 2005)

Eugénio de Andrade
O sal da lingua
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A l’ombra d’Homer
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És mortal aquest Agost —la seva xardor
s’enfila pels graons de la nit,
no em deixa dormir.
Obro el llibre sempre a mà per la súplica
de Príam —però quan
l’arrauxat Aquil·les ordena l’ancià
rei que no li burxi més
el cor, paro de llegir.
El matí triga. Com dormir
amb l’ombra turmentada
d’un vell al llindar de la mort?,
o amb les paraules que a Aquil·les
li brollen de l’ànima, per l’amic
a qui acaba de soterrar?
Com dormir a les portes de la vellesa
amb aquest pes sobre el cor?
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